16 de jul de 2016

O ex-chefe de espionagem do Afeganistão diz que há cartas que comprovam que o Paquistão apoia militantes terroristas

Rahmatullah Nabil, o então chefe da Direcção Nacional do Afeganistão de Segurança (NDS)



Reuters UK, 15 de julho de 2016. 






O ex-chefe de Inteligência do Afeganistão divulgou documentos nesta quinta-feira em que demonstra como os serviços de inteligência paquistaneses ajudaram líderes do Talibã e da temida rede Haqqani em 2014 e 2015. 

Rahmatullah Nabil saiu da Direção Nacional de Segurança (NDS) em dezembro do ano passado, depois de se opor aos esforços do presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani para melhorar as relações com o Paquistão, que incluem apoiar Islamabad em negociações de paz com o Talibã.  


Nabil disse a um grupo de jornalistas em Cabul que ele havia exposto as cartas para fornecer provas concretas do conluio do Paquistão com o Talibã e sua associação com o grupo Haqqani, que tem sido responsabilizado por uma série de sequestros e atentados suicidas de alto nível na capital. 

O Ministério das Relações Exteriores do Paquistão e o braço midiático do Exército não responderam aos vários questionamentos por escrito e por telefone, não comentando o assunto no qual a Reuters delineia as acusações contra o Paquistão. 

Nem o NDS nem o governo afegão estavam disponíveis para comentar de imediato sobre os documentos. 

Nabil não disse como tinha obtido as cartas. A Reuters não pôde verificar de forma independente a sua autenticidade. 

Desde que se aposentou do serviço de inteligência, Nabil foi um forte crítico do Paquistão, que é rotineiramente acusado pelo Afeganistão de patrocinar o Talibã afegão, uma acusação que tem sido consistentemente negada. 

Durante os últimos 14 anos, ninguém revelou documentos deste tipo. Aqui estou eu, provando isso”, disse ele aos jornalistas, a quem mostrou os documentos. “Eles nos matam todos os dias e cometem todos os tipos de atrocidades, temos que expô-los.”.

Uma carta de origem da seção do serviço de inteligência militar do Paquistão na cidade de Peshawar, está com o título “Acordos de casas seguras e proteção aos talibãs afegãos e sua liderança”. 

Na carta, datada de agosto de 2014, fala-se sobre organizar casas e veículos seguros para oferecer aos comandantes dos talibãs, que foram forçados a sair de uma área remota do norte do Paquistão, enquanto uma operação do exército estava sendo conduzida. 

Outra carta, datada de março de 2015, solicita uma atualização sobre o pessoal da rede Haqqani em Nowshera, Mardan e Swabi, na província fronteiriça paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa. 

Uma terceira carta era dirigida para a Direção-Geral de Inteligência Militar da Defesa, datada de julho de 2014, e se referia a “ataques ao aeroporto de Cabul e a liberação de pagamentos”. 

A carta diz que a quatro membros da rede Haqqani estavam sendo pagos 2,5 milhões de rúpias paquistanesas (18,012 libras) cada para a “execução bem-sucedida e abrangente de ataques em KB AP”. 

O porta-voz do Talibã Zabihullah Mujahid rejeitou as cartas como sendo uns “pacotes de mentiras” e disse que o grupo não precisava de ajuda externa para lutar contra o governo afegão e seus aliados ocidentais. 

Qualquer um pode criar esses tipos de documentos nos dias de hoje e é por isso que não vou leva-los a sério”, disse ele à Reuters. 

Vítima de terrorismo. 

As autoridades em Islamabad há muito tempo rejeitaram as acusações de que o Paquistão tem prestado apoio e santuário para o Talibã afegão e os seus líderes, dizendo que o país tem por anos sido vítima do terrorismo, em grande parte por grupos com base no Afeganistão. 

A liberação dos documentos ocorre em meio a um agravamento das tensões entre os países vizinhos nas últimas semanas, com dias de confrontos como no mês passado durante o qual as tropas na fronteira trocaram fogo de artilharia. 

Isso também ocorreu dias depois que o Paquistão enfrentou pesadas críticas em uma audiência da Comissão de Relações Exteriores do Congresso em Washington. 

O presidente afegão Ghani criticou o Paquistão durante uma visita a cúpula da OTAN em Varsóvia na semana passada, e acusou-o de conduzir uma “guerra não declarada” contra o Afeganistão. 

Em resposta, Islamabad disse que o Afeganistão estava jogando um “Jogo de culpa” em vez de cooperar de forma eficaz para acabar com o terrorismo. 

Críticos do Paquistão dizem que o país apoia militantes islâmicos no Afeganistão para manter a influência e usá-los contra sua arquirrival Índia, para ganhar posição, cercando-a efetivamente. 


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