22 de abr de 2019

China Avança no Caribe

Gatestone, 21 de abril de 2019 









  • A cerca de 88 quilômetros a leste de Palm Beach, Flórida, na Grand Bahama Island, uma empresa sediada em Hong Kong está desembolsando cerca de US$3 bilhões em uma central de contêineres em águas profundas, o Freeport Container Port.
  • A preocupação é que o porto se torne outra armadilha em forma de dívida, como Hambantota, no Sri Lanka. Há especulações inquietantes que Hambantota acabará se tornando uma base naval da China. Será que o Pentágono terá que se confrontar com navios de guerra chineses em Freeport?
  • Os militares chineses já se encontram no Caribe e em Cuba, ao que tudo indica, com o propósito de coletar informações de transmissões da inteligência dos EUA. Washington esbanja dinheiro no Oriente Médio, mas os estrategistas políticos dos Estados Unidos também precisam se interessar, urgentemente, acerca de lugares críticos e carentes próximos de casa.


Uma "Tempestade Vermelha Avança" a poucos quilômetros do litoral dos Estados Unidos. "Na realidade, todo o hemisfério está em chamas," ressaltou Lou Dobbs, âncora da Fox Business Network em seu programa de grande audiência transmitido em de 04 de abril. "China e Rússia estão nos confrontado em quase todos os cantos do hemisfério. Rússia e China na Venezuela, China em todo o hemisfério e em todo o Caribe".


Nos quatro cantos do Caribe a influência da China avança a passos largos. Comércio e investimentos fizeram de Pequim uma potência. As intenções chinesas não são unicamente comerciais e pelo andar da carruagem também não parecem ser lá muito auspiciosas.

Comecemos pela ilha New Providence, nas Bahamas. Em 2011 o Banco de Exportação e Importação da China realizou um empréstimo no valor de US$2,45 bilhões para a construção do resort Baha Mar, próximo à capital, Nassau. O projeto, que mostrou ser problemático desde o início, é o maior e mais caro do Caribe.

O tamanho do projeto é uma raridade e o enorme envolvimento da China no Caribe é, do ponto de vista econômico, inusitado. Conforme aponta Evan Ellis, do US Army War College, a China, do ponto de vista per capita, tem mais capital investido no Caribe do que no restante da América Latina. Isso é digno de nota porque o Caribe, em comparação com o restante da região, conta com pouquíssimos recursos naturais e somente um minúsculo mercado para os produtos chineses. Conforme Ellis salientou a Roll Call, "realmente não se trata do mercado ou dos recursos se você observar o montante que eles estão investindo".

A pergunta que não quer calar: o que está por trás do interesse da China? Outro investimento faraônico nas Bahamas dá uma pista.

A cerca de 88 quilômetros a leste de Palm Beach, na Grand Bahama Island, uma empresa sediada em Hong Kong está desembolsando cerca de US$3 bilhões em uma central de contêineres em águas profundas, o Freeport Container Port.

A lógica comercial é que a Freeport poderá aproveitar o tráfego do Canal do Panamá, recentemente ampliado, mas a preocupação é que o porto se torne outra armadilha em forma de dívida, como Hambantota, no Sri Lanka. Em dezembro de 2017 a China assumiu o controle do porto de Hambantota, apoderando-se de 70% do capital, assinando um contrato de arrendamento por 99 anos devido ao fato do empreendimento não ter tido condições de saldar os empréstimos com juros altos ofertados pela China. A aquisição pela China foi inevitável visto que Hambantota foi mal concebido desde o princípio.

Há especulações inquietantes que Hambantota acabará se tornando uma base naval da China. Há muito tempo que os almirantes chineses estão de olho no Sri Lanka devido à sua localização estratégica. Em setembro e outubro de 2014, o governo do Sri Lanka permitiu que um submarino chinês atracasse no Terminal Internacional de Contêineres de Colombo, financiado pela China. Será que o Pentágono terá que se confrontar com navios de guerra chineses em Freeport?

Os militares chineses já se encontram no Caribe e em Cuba. De acordo com um relatório de outubro de 2018 da Comissão EUA-China, a China se faz presente nas unidades da inteligência da era soviética em Lourdes, Bejucal e Santiago de Cuba, ao que tudo indica, com o propósito de coletar informações de transmissões da inteligência dos EUA.

Dos locais citados acima, Bejucal, localizada na região sul de Havana, merece uma atenção especial. Imagens de satélite mostram uma nova cúpula de proteção de sistema de vigilância, essa instalação pode muito bem pertencer à China. Afinal de contas, a China se faz presente em Bejucal há um bom tempo. O senador republicano pela Flórida Marco Rubio se referiu publicamente em 2016 a "esta estação de escuta chinesa de Bejucal".

Em um bate-papo em um podcast com Bonnie Glaser, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Ellis observou que Pequim vê o Mar do Caribe da mesma maneira que vê o Mar do Sul da China. Essa leitura ajuda a explicar a singular atenção dada pela China aos 13 estados insulares e aos 17 "territórios dependentes", outrora conhecidos como "colônias", daquela região.

Essa atenção também ajuda a entender o discurso veemente de Haigang Yin, encarregado de negócios da China, proferido no mês passado, nas Bahamas. Dias antes da reunião do Presidente Donald Trump com cinco líderes do Caribe em 22 de março, incluindo as Bahamas, em Mar-a-Lago, Yin acusou os EUA de procurar "desintegrar a solidariedade e cooperação da China com outros países em desenvolvimento".

A arrogância chinesa é de deixar os cabelos em pé. Apesar dos esforços de Pequim, Trump se reuniu com os líderes do Caribe. No entanto, o esforço concentrado de Washington no sentido de se aproximar dos atores da região ainda é inadequado para enfrentar o desafio chinês. A âncora Trish Regan da Fox Business salientou em seu programa de 5 de abril, veiculado em horário nobre: "desde a crise dos mísseis em Cuba em 1962, não tivemos um inimigo dessa magnitude presente em nosso próprio hemisfério".

Até o momento, os Estados Unidos deixaram a maior parte do Caribe à mercê da própria sorte. Como se costuma dizer, o Caribe é "democrático demais e pobre o bastante" para chamar a atenção dos EUA. No entanto, o Caribe é acertadamente chamado de "terceira fronteira" e "ponto fraco" dos Estados Unidos.

Este ponto fraco está sendo refeito com dinheiro chinês. A título exemplificativo, consideremos cinco países, Trinidad e Tobago, Granada, Dominica, Antígua e Barbuda e República Dominicana, que aderiram à ambiciosa Iniciativa "Um Cinturão, Uma Rota" de Pequim, um plano de infraestrutura destinado a vincular as rotas comerciais globais à China.

À medida que Pequim força a barra da iniciativa na região, aumenta a dor de cabeça de que mais países cairão na "armadilha da dívida", como aconteceu com o Sri Lanka. Mark Green, administrador da USAID tem razão ao tachar os empréstimos de Pequim aos tomadores de empréstimos do Caribe de "financiamento predatório". Os alertas americanos, no entanto, cairão no vazio se os EUA não apresentarem alternativas, conforme realçou Margaret Myers, do Inter-American Dialogue ao Roll Call.

Após o encontro de Trump com líderes do Caribe em Mar-a-Lago, os EUA prometeram enviar uma delegação à região. Além disso, o Departamento de Estado conta com um plano próprio, chamado "Caribe 2020." Apesar do nome sugestivo, os programas americanos precisam de dinheiro para suportá-los.

Washington esbanja dinheiro no Oriente Médio, mas os estrategistas políticos dos Estados Unidos também precisam se interessar, urgentemente, acerca de lugares críticos e carentes próximos de casa.

Gordon G. Chang é o autor do livro "The Coming Collapse of China" e Ilustre Colaborador Sênior do Gatestone Institute.

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