24 de jun. de 2016

Eurocépticos em França, Itália, Holanda e Dinamarca querem os seus próprios referendos: o tsunami político global

Prólogo.

Aconteceu que a mudança foi consolidada, e ela era inevitável; porém, não é irreversível. O projeto europeu, o Federalismo, por hora está sendo colocado em teste, para algo maior, algo que compreende-se como sendo não mais um regionalismo continental, mas além disso, algo abrangente, algo sonhado por muitos. É muito cedo para dizer que o projeto globalista morreu, e que a Grã-Bretanha se livrou dele, pois nós sabemos que o que move as lideranças não são propriamente organizações internacionais, mas ideologias compartilhadas, inclusive por elas, para uma casta de grandes líderes. Não foi preciso, outrora, que houvesse uma organização internacional para que o Comunismo se estabelecesse na Rússia. Assim, como não foi preciso uma organização internacional para fazer todas as revoluções “pré-comunistas”, já catalogadas na história. 


Tenho ouvido e lido vários comentaristas que são quase que unanimes em dizer que o Reino Unido livrou-se do globalismo, e que agora é independente, e que a esquerda está arruinada. Muitas pessoas têm dito algo nesse sentido sem avaliar o mérito da coisa, sem avaliar as verdadeiras mudanças que ainda estão por vir. Reiterados pareceres demonstram os erros das avaliações de última hora, como, por exemplo: dizer que é um movimento unicamente patriota; não, ele não é! Primeiro que, para que seja um movimento unicamente patriota, deveria haver os agentes dessa bandeira. E se avaliarmos estes agentes pelo mérito, veremos que não são patriotas, mas a outra metade do sistema. Um bom exemplo é o badalado Nigel Farage: Nigel Farage, líder do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), declarou sucintamente que Vladimir Putin é o verdadeiro líder da Europa, e quem ele admira, e também disse que Merkel não representa nem ela mesma. O desejo de Farage de sair da União pode ser legítimo, mas sua ideia de política externa e cooperação com a Rússia, pode abrir um precedente perigoso para a Europa, e principalmente os países fracos do leste.

Farage, no Parlamento Europeu defendeu a Rússia após a invasão e anexação da península da Crimeia. Farage foi contra o levantar das sanções contra a Rússia, e disse que a OTAN tem sido obsoleta, em matéria de defesa, e tem uma visão similar à de Donald Trump. Farage pode até estar certo em alguns pontos: Em matéria de defesa, como, por exemplo, na questão da defesa marítima, a OTAN tem feito um desserviço. Por quê? Pelo fato de que, ao invés de usar a inteligência [método de investigação] para saber quem são os agentes infiltrados do Estado Islâmico, querendo vir para Europa, a Organização do Tratado do Atlântico Norte está enviando barcos para recepcionar os “imigrantes” da Líbia; justo o maior reduto do Estado Islâmico. No entanto, a OTAN, mesmo falha, não é unicamente uma garantia de defesa contra outros potentados islâmicos, tais como o Irã, mas é um meio de defesa dos antigos países soviéticos do leste e do báltico, contra a Rússia, que, aliás, é responsável por munir um estado oficialmente reconhecido como patrocinador do terrorismo, o Irã. Dizer que a Rússia não representa um risco, após duas invasões, e fazer apologia ao Irã, seu parceiro, não só é loucura, como mau-caratismo. 

Atualmente a Rússia está mantendo o combalido regime Assad no poder com os seus esforços pelos seus próprios interesses. Rússia e Irã estão agindo em conjunto no Oriente Médio, aproveitando-se da falta de vontade e inaptidão do governo Obama, e da inépcia do Ocidente como um todo. Enquanto Obama se esforça para colocar homens em banheiros femininos, Putin vai reconstruindo suas antigas bases na Síria, e também na sua recente “aquisição”, a Crimeia. A Rússia também tem mantido sob pressão a Finlândia e a Suécia em questões de defesa e de adesão à OTAN. Enfureceu-se e prometeu represálias contra Polônia e Romênia, pelos exercícios da OTAN próximos de sua fronteira. Não ficou satisfeita ao saber que Montenegro tornou-se membro da OTAN, num acordo recentemente ratificado. Também tem investido no continente sul-americano, por meio de suas construções de bases na Nicarágua

A Rússia se move, e assim como o Irã, não o faz sem levar a algum estrago. No caso, os que sentirão mais na pele são os países do leste. Farage ignora tudo isso, portanto, fica claro que o movimento Brexit, ou mais precisamente, os seus proponentes, não são de fato patriotas, e agentes anti-Establishment, mas sim parte dele, com uma visão ligeiramente diferente. E só! Outra pessoa badalada pelos maus-informados formadores de opinião brasileiros nas redes sociais é Marine Le Pen. A senhorita Le Pen tem um caso de amor com o Kremlin já faz algum tempo, e que é muito conhecido por todos, inclusive, pelos seus próprios admiradores que também endossam a ideia de que o Kremlin é a melhor saída para Europa, tal como o senhor Farage. Le Pen já recebeu muitas compensações por defender o Kremlin, e pretende manter-se assim. Ela, tal como o líder britânico eurocético, também foi contra as sanções abertas ao Kremlin, alegando que era uma restrição inútil, e injusta. Le Pen foi contra o movimento da União Europeia de adesão da Ucrânia ao bloco. É aqui que entra a parte engraçada: diversos grupos brasileiros conservadores alegaram que era preciso ter a mesma atitude que os ucranianos em Maidan, em 2013, contra o então presidente Víktor Yanukóvytch; um fantoche de Vladimir Putin, atuando na corrupta Ucrânia para postergar sua ida até a União. Naquela ocasião, as preocupações de Putin era que a rota comercial ao Mar Negro, via Crimeia, fosse bloqueado, caso o território soberano da Ucrânia, a Crimeia, continuasse sob a égide de Kiev. Para impedir que isso acontecesse, Putin usou da corrupção no sistema político ucraniano para poder postergar, e assim, manter a União Europeia longe, assim como a OTAN, que teria que vir ao socorre de Kiev, se assim desejasse, pois como membro da União, o país passaria a gozar dessa regalia. 

Após ter falhado em 2013, um ano depois, Vladimir Putin armou os seus separatistas para invadir a Ucrânia e anexar a Crimeia, e assim, causando o morticínio de vários cidadãos – isso já em 2014. A parte irônica a qual me referi é exatamente esta: os brasileiros querem imitar os ucranianos no ato que protagonizaram em Maidan, mas congratulam-se do Reino Unido saindo da União Europeia, quando o movimento em Maidan em 2013 foi exatamente contra o presidente Yanukóvytch, por não querer assinar os tratados de adesão da Ucrânia a União, ou seja; os brasileiros endossam um movimento e o admiram pelo seu ímpeto, sendo que tudo o que girava em torno dele era a adesão do país, pela vontade de seus cidadãos à União Europeia. Hoje os grupos conservadores e formadores de opinião estão admirados com a saída do Reino Unido da União Europeia, mas não faz muito tempo estavam falando do glorioso movimento em Maidan, que é exatamente o oposto do que o Reino Unido fez. Muitos conservadores brasileiros sabem que Vladimir Putin não vale nada, e que o que ele fez em 2014 foi um crime; isso, é claro, somado ao apoio dele aos regimes socialistas latino-americanos os tornam mais convictos de sua desfaçatez. No entanto, os mesmos hoje estão congratulando-se com pessoas que defendem a perca de soberania duma nação, enquanto pelo outro lado de suas bocas alegam que estão lutando pela de seus respectivos países: esse é o caso de Marine Le Pen, Geert Wilderes e Nigel Farage – cada um deles defendeu que a Ucrânia não fizesse parte da União Europeia, e foram contra as sanções a Rússia pela anexação da Crimeia. 

Geert Wilders do Partido da Liberdade fez campanha este ano contra a adesão da Ucrânia a União Europeia, que seria consolidada se os holandeses tivessem dito “sim”, num referendo promovido pelo primeiro-ministro Mark Ruth. Wilders e outros líderes eurocéticos eram contra a adesão da Ucrânia. Muitos ucranianos ficaram desolados ao saberem que os holandeses rejeitaram a adesão do país ao bloco. A Holanda exerce a presidência rotativa do Conselho Europeu, portanto, as decisões concernentes aos candidatos a Estado-Membros também passam pelo escritório do primeiro-ministro holandês. Os ucranianos reiteraram que ao dizer “não” as suas reivindicações, os holandeses desonrariam os seus mortos, que foram abatidos no avião malaio MH17, quando sobrevoava a zona de conflito na Crimeia, quando um foguete foi atirado por separatistas russos e o atingiu. Mas nem isso foi o suficiente. O apoio dos líderes eurocéticos a Putin, mais o seu desejo pelo esfacelamento do bloco europeu, fez com que o movimento dos ucranianos em Maidan –, pois foi por esse motivo que houve aquele movimento em Maidan, não foi uma simples manifestação contra corrupção, como alguns tentam desenhar, mas sim pela adesão à União Europeia – se tornasse praticamente inútil, e sem importância alguma. O movimento foi marcante para os ucranianos, e para algumas pessoas que simpatizam pelo país e deploram a Rússia, mas os europeus, e principalmente os holandeses, não se importaram e não se comoveram com isso, e decidiram que a Ucrânia deve ficar no seu lugar e não aderir a União, pois segundo eles: ela já tem poder demais. Fora a animosidade por conta da corrupção endêmica que vive o país, do qual muitos alegam que poderia transformar o país numa nova Grécia. 

Ironicamente, os brasileiros ditos de direita passaram a admirar um sujeito que foi contra o movimento de Maidan, do qual admiram como sendo patriótico e revigorante, mas do qual só querem o modelo, sem entender que o objetivo de Maidan, ou, Euromaidan, como chamam os ucranianos, era o de fazer parte da União Europeia, e ficar longe da Rússia. No entanto, os protagonistas do euroceticismo, Nigel Farage, Marine Le Pen, e principalmente, Geert Wilderes, foram contra. Eles não querem uma Ucrânia dentro da União Europeia, mas sim, o fim da União Europeia, e a Rússia como liderança. Exatamente o oposto dos desejos dos ucranianos, principalmente em Maidan no ano de 2013. A curto prazo, não haverá mudanças na Grã-Bretanha, mas o vácuo político de estar fora da União Europeia pode propiciar para os proponentes políticos da saída uma plataforma política perfeita, e uma oportunidade de brilhar, uma vez que a influência política de Bruxelas diminui. Isso também será uma grande oportunidade para Vladimir Putin testar os seus fantoches eurocéticos, e ver se assim consegue uma vitória ainda maior: candidatos que estão dispostos a findar a cooperação com a Aliança (OTAN). O Reino Unido sai da União Europeia, mas os precedentes políticos podem precipitar futuramente sua saída da OTAN. Dependendo do espírito do povo britânico, isso é bem possível de acontecer. No entanto, é como eu disse: ainda é muito cedo. 

Se alguém me perguntar se o certo era não sair, eu direi, obviamente, que não! O certo era sair. A União Europeia tal como o Mercosul / UNASUL não são projetos dos quais nós desejamos fazer parte, mas sim a oligarquia política. No entanto, assim como políticos que hoje demandam imigração nos países europeus foram também apoiantes da desintegração da União Soviética, assim também, similarmente, são os que são estão desintegração da União Europeia por um lado, em que desejam o fim do que chamam dum projeto burocrático inútil, mas pelo outro lado, defendem uma Rússia insurgente que ameaça a estabilidade na Europa e no mundo, e principalmente, no Oriente Médio. O Brexit significa mudança, e mudanças duradouras, porém, não irreversíveis. Nós veremos os próximos capítulos disso mais a frente, por hora, eu expresso por meio desse prólogo o que realmente vejo por trás da cortina de fumaça. 

Líder da Frente Nacional Marine Le Pen


Público, 24 de junho de 2016. 

Eurocépticos em França, Itália, Holanda e Dinamarca querem os seus próprios referendos
Impulsionados pela decisão no Reino Unido de abandonar a União Europeia, os maiores movimentos eurocépticos e de "extrema-direita" na Europa pediram esta sexta-feira referendos sobre a saída da comunidade europeia nos seus próprios países — ou, no caso de Marine Le Pen, em todos os Estados-membros.
“Vitória da liberdade”, escreveu a francesa que lidera a Frente Nacional no Twitter. “Como venho pedindo há muitos anos, é preciso fazer o mesmo referendo na França e nos países da UE”, argumenta a candidata às presidenciais do próximo ano, que, como os seus partidos irmãos no grupo Movimento Europa das Nações e Liberdades, espera sair fortalecida pelo “Brexit”.

“Como muitos franceses, estou muito contente pelo povo britânico se ter aguentado e ter decidido correctamente”, disse mais tarde à rádio RTL. “O que pensávamos ontem ser impossível tornou-se agora possível”, afirmou, na mesma linha do que escreveu o vice-presidente da Frente Nacional, Florian Philippot, e a sua sobrinha e deputada, Marion Le Pen.

Os principais movimentos eurocépticos na Europa usaram o mesmo tom. Em Itália, o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo, que não quer abandonar a União Europeia, apelou esta sexta a um referendo sobre a moeda única. Já o líder do partido "xenófobo" e anti-imigração Liga Norte, Matteo Salvini, pede um “Brexit” à italiana. “Obrigado, Reino Unido. Agora é a nossa vez”, escreveu nas redes sociais.
Acontece o mesmo na Holanda. “Holanda será a próxima”, defendeu Geert Wilders, uma das vozes mais sonantes do movimento eurocéptico e anti-imigração na Europa, repetindo os mesmos argumentos ouvidos nas últimas semanas no Reino Unido: “Queremos recuperar o controlo sobre o nosso país, o nosso dinheiro, as nossas fronteiras e a nossa política de imigração.”
Na Dinamarca, é o Partido Popular Dinamarquês — anti-imigração e a segunda força política — quem carrega a bandeira por um referendo próprio sobre a União Europeia, que, na opinião do seu líder, Kristian Thulesen Dahls, deve ser realizado caso o país não reforme a sua relação com Bruxelas. “Se uma maioria no Parlamento não se quiser envolver nisto, por que não perguntar num referendo aos dinamarqueses em que se decida o caso?”, lançou Dahls esta sexta-feira. 

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