25 de jan de 2017

O eixo russo-turco-iraniano

Rouhani, Putin e Erdogan


JP, 25 de janeiro de 2017. 



Por Ofra Bengio



A Rússia tem realizado um sonho de longa data de chegar à agua quente do Mediterrâneo e está se lançando como potência hegemônica na região. 

Sessenta anos se passaram desde o pacto de Bagdá, que reuniu a Turquia, o Irã, o Iraque e o Ocidente numa aliança contra a URSS e o concomitante perigo comunista. Hoje em dia, esta arquitetura do Oriente Médio mudou 180 graus para onde a Rússia, Turquia e o Irã estão em uma aliança contra o Estado Islâmico, mas que pode virar-se contra o Ocidente também. Ainda assim, a nova aliança poderia ser denominada como um casamento de inconveniência, onde cada uma das partes tem motivos diferentes e está agindo com objetivos cruzados na divisão do urso sírio. 


A Rússia tem cumprido um sonho de longa data de chegar à água quente do Mediterrâneo e está se lançando como potência hegemônica na região. O antigo mundo unipolar em que os Estados Unidos foi o único poder no Oriente Médio desapareceu e o vácuo resultante permitiu à Rússia espalhar sua influência em muitos países da região e tornar-se o árbitro no conflito que fervilha na Síria. 

Esta mudança estrutural convenceu o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, a seguir o adágio “se você não pode vencer o seu inimigo, junte-se a ele”. Ironicamente, foram as percepções de ameaças domésticas que jogaram a Turquia nos braços da Rússia. Tão ameaçador o movimento nacional curdo na Turquia e na Síria que pareceu que Erdogan estava disposto a fazer as pazes com a Rússia desconsiderando os temores turcos incorporados de ser flanqueado pela Rússia de norte a sul. Impulsionada pela necessidade de conter ou destruir a região autônoma curda da Síria, a Turquia tinha, assim, de se comprometer com três questões geoestratégicas: o poder hegemônico da Rússia em sua fronteira sul, e a sobrevivência de seu inimigo no regime sírio e a posterior solidificação de sua rivalidade com o Irã xiita na Síria. 

Neste empreendimento, seus interesses podem colidir, a longo prazo, não apenas com a Rússia, mas também com a Turquia. 

A Rússia assumiu o manto de negociar a paz na Síria. Ela conseguiu uma certa calma nos combates, e está convocando o processo de paz em Astana, e está manobrando o regime Assad para os seus próprios fins, curiosamente sem tê-lo incluído na aliança encontrada. Quanto aos Estados Unidos, está a desempenhar um papel secundário no processo de paz, mas de qualquer forma o destino da Síria será decidido na batalha pela libertação de Al-Bab e Raqqa do ISIS. Lá, os Estados Unidos terão de participar, enfrentando um dilema de qual dos seus aliados vai apoiar: a Turquia ou os curdos. 

O Pacto de Bagdá durou apenas três anos (1955-1958). A nova aliança tripartite pode não sobreviver por tanto tempo. Esta nova estrutura é muito frágil devido às mudanças que provavelmente ocorrerão nos Estados Unidos sob o novo governo Trump, ao aprofundamento da divisão sunita-xiita e aos multiplicadores de jogadores e conflitos na Síria, todos os quais prometem impedir a estabilidade e as duradouras alianças. 

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