6 de ago de 2016

Como o golpe na Turquia pode extirpar os laços com o Ocidente, e fazer com que a distensão com a Rússia ganhe velocidade

Prólogo

O autor acerta até certo ponto, mas ele erra no que diz respeito as relações Moscou-Ancara, pois, aparentemente, elas nunca sofreram nem um tipo de dano – a única coisa que houve foi um teatro bem armado entre os dois países. Os laços de Ancara com Moscou, como eu já disse uma vez, se dão também pelo seu intermediário o Irã. Ancara ajudou Teerã com o seu programa nuclear no papel de membro da OTAN, e Moscou foi quem ajudou Teerã a obter antecipadamente tecnologia nucelar; seja ela por moldagem ou na forma de mísseis já produzidos e comercializados. Tirando a visão populista dos defensores do regime de Moscou que está em voga, a Turquia islâmica não estava prestes a entrar num atrito mortal com a Rússia “cristã”, que proíbe evangelismo. Muito dessa visão foi compartilhada pelas redes sociais, provando que a deficiência intelectual continua sendo contagiosa. 

No tocante a Síria: Erdogan pode até falar em querer a destituição de Assad, mas já cantarolou antes que pretendia reatar laços com o ditador sírio, portanto, a mudança de comportamento de Ancara é duvidosa nesse sentido, de que permanecerá irredutível sobre a saída de Assad. Ancara mudou de ideia muito rápido, e as tais tensões duraram tão pouco quanto uma peça de teatro, que de fato foi! Acreditar na veracidade daquela novela mal encenada é ser mais do que crédulo, mas ser burro ao extremo. Erdogan provavelmente vai dar o benefício da dúvida para o ditador, que permanecerá sob a égide de Moscou, que é quem puxa as cordas em suas articulações. O plano para o seu projeto de energia, provavelmente, vai abranger a Síria também, portanto Putin e Erdogan podem convergir harmonicamente sobre a permanência do seu fantoche. 

Após o autogolpe de Ancara, o país agora tem um trunfo nas mãos em que além dos ataques diários dos militantes curdos terroristas, também tem um golpe de estado – o que lhe dá garantias de pressionar Bruxelas sobre o aumento das concessões para o regime, pois segundo a lógica turca: quem seria idiota de não exigir maiores benefícios nos acordos com Bruxelas, sendo que o país tem passado de atentados até golpes de estado? Bruxelas ao tentar parar a tomada de poder por Erdogan só faria com que os acordos fossem minados, e isso seria o fim, visto que os últimos ataques terroristas na Europa balançaram os alicerces do superestado europeu. Além disso, o plano mestre de Erdogan provavelmente terá sido bem sucedido, caso Bruxelas ceda, pois ele já está visando dar cidadania turca para sírios, o que faria com que eles fossem automaticamente contemplados com a isenção de vistos concedida pela União Europeia, ou seja, não faria diferença desfazer os acordos e inundar a Europa, a fechar os acordos e receber isenção, de qualquer maneira, a Europa será inundada, ou por refugiados sírios, ou por sírios com cidadania turca. Erdogan pensou em tudo e como o autor mesmo disse: “A União Europeia não está em posição de barganhar. Politicamente, é muito fraca.”. Moscou e Ancara poderão rir alto da estupidez ocidental que, aparentemente, vai perdurar um pouco mais. 

Putin Erdogan


Reuters, 06 de agosto de 2016.


Por Nick Tattersall e Alexander Winning

Com as relações da Turquia com a Europa e os Estados Unidos tensas pela precipitação do seu fracassado golpe, o presidente Tayyip Erdogan viaja para a Rússia na terça-feira para atender a Vladimir Putin, em uma viagem que poderá fazer com que o Ocidente tenha que parar para pensar.
As autoridades turcas insistem que a visita de Erdogan a São Petersburgo não é um sinal de que o membro da OTAN e candidato a União Europeia está virando as costas para o Ocidente. Em vez disso, dizem eles, é apenas o próximo passo na reaproximação com a Rússia, que começou semanas antes da tentativa de golpe em 15 de julho.

Mas o degelo com Moscou, que impôs sanções comerciais há nove meses após a Turquia derrubar um caça russo perto da fronteira com a Síria, vem conforme o relacionamento de Ancara com o Ocidente torna-se cada vez mais difícil e turbulento.

Erdogan e muitos turcos ficaram indignados com o que veem como preocupações ocidentais sobre a repressão pós-golpe, mas também com a indiferença aos próprios acontecimentos sangrentos, em que mais de 230 pessoas foram mortas conforme soldados desonestos bombardeavam o parlamento e apreendiam pontes com tanques e helicópteros.

O governo turco acusou de responsáveis pelo golpe os seguidores do clérigo no exilio auto-imposto nos Estados Unidos, e começou a purga de dezenas de milhares de seus supostos seguidores de cargos como professores, policiais, juízes e soldados. Países ocidentais dizem que o expurgo foi muito rápido e indiscriminado.

Então as relações ficaram ainda mais danificadas depois que o Ministro das Relações Exteriores da Alemanha nessa semana disse que não havia base para discussões com a Turquia, e que “ao falarmos uns com os outros, soa como se fossemos emissários de dois planetas diferentes.” O Chanceler da Áustria sugeriu que as conversações sobre a adesão da Turquia à União Europeia devem ser suspensas.

“Para Erdogan, este encontro com Putin é certamente uma oportunidade para sinalizar aos parceiros da Turquia no Ocidente que o país poderia ter outras relações estratégicas”, disse Sinan Uglen, um ex-diplomata turco e analista do Carnegie Europa, um Think Tank.

“Há este jogo de percepção de que a Turquia poderia estrategicamente gravitar em torno da Rússia, se a relação com o Ocidente não puder ser mantida. Há também o incentivo do lado da Rússia para usar a crise na Turquia para minar a coesão do Ocidente e da OTAN”, disse Uglen.

A reunião de Erdogan com Putin será apenas a segunda com um chefe de Estado estrangeiro desde o golpe, na sequência de uma visita a Ancara feita pelo presidente do Cazaquistão na sexta-feira. As autoridades turcas têm questionado por que nenhum líder ocidental tem vindo mostrar solidariedade.

“Tanto a Rússia e a Turquia são párias, tanto quanto o Ocidente está preocupado”, disse Andrey Kortunov, diretor-geral do Conselho de Assuntos Internacionais da Rússia, um Think Tank de política externa perto do Ministério das Relações Exteriores russo.

“Em face disso, o golpe falho tem levado a Turquia a estar mais próxima da Rússia. Mas ainda há sérias diferenças entre os dois países”, disse ele à Reuters.

Desacordos persistem sobre a Síria, onde Moscou apoia inteiramente o presidente Bashar Al-Assad, mas Ancara quer que ele seja deposto, bem como no Sul do Cáucaso, onde a Turquia apoiou [e apoia] o Azerbaijão em um conflito com a Armênia, um aliado da Rússia, sobre a região separatista de Nagorno-Karabakh.

“O encontro entre Putin e Erdogan... Vai mostrar o quão longe os dois lados estão dispostos a se comprometer. A questão é se a atual escalada tática pode se traduzir em uma parceria mais profunda e estratégica”, disse Kortunov.

Um sinal para o Ocidente. 

Washington está susceptível a acompanhar de perto. Os seus laços com Ancara estão tensos, por causa da presença continuada nos Estados Unidos do clérigo Fethullah Gulen, acusado por Erdogan de orquestrar a tentativa de golpe.

Gulen, que vive em exilio auto-imposto na Pensilvânia desde 1999, nega envolvimento no golpe e Washington disse que vai extraditá-lo somente se a Turquia fornecer evidências, para a grande frustração do governo turco.

O secretário de Estado dos Estados Unidos John Kerry é esperado para visitar a Turquia no final de agosto, segundo informações oficiais, com o caso de Gulen provavelmente no topo da agenda.

“Em um momento como este, a Turquia espera expressões de união e solidariedade, mas o Ocidente não chega nem perto disso”, disse Faruk Logoglu, ex-embaixador da Turquia a Washington e até recentemente um legislador do principal partido de oposição secularista.

Embora o calendário de viagem de Erdogan à Rússia possa ser interpretado como um sinal para o Ocidente, Logoglu duvidava de que significasse um abraço turco completo na Rússia ou um dano duradouro aos laços com os Estados Unidos.

“O relacionamento turco-americano é como um casamento católico: Não há divórcio. Ambos os lados precisam um do outro”, disse ele. “Ele [o relacionamento] passou por testes severos no passado e eu acho que vai resistir a este também.”

A aproximação entre Ancara e Moscou poderia ser mais problemática para a Europa, que está de olho em um plano para um gasoduto da Rússia para a Turquia, um projeto conhecido como TurkStream, conforme há uma complicação em seus esforços para reduzir a dependência da energia russa.

“A cooperação de gás entre a Rússia e a Turquia poderia ser assustador para a União Europeia”, disse Akin Unver, assistente de professor de relações internacionais na Universidade de Kadir Has em Istambul e um especialista em energia regional.

“A União Europeia quer diversificar os fornecedores e vincular gás Mediterrâneo Oriental para a Europa a longo prazo... Se a Rússia ignorar tudo isso com o TurkStrream isso não ajudaria. Mas a União Europeia não está em posição de barganhar. Politicamente, é muito fraca.”

Turbulência de curta duração. 

O assessor de política externa de Putin Yuri Ushakov disse que a Síria seria o principal tema com Erdogan. TurkStream, e projetos de energia nuclear, e a tomada dos fretes de voos da Rússia para a Turquia, que pararam após a derrubada do avião de combate russo em novembro passado, também serão discutidos.

As receitas de turismo, um dos pilares da economia turca, foi dizimada pela queda no número de visitantes russos, cujo número caiu para 87% nos primeiros seis meses do ano. O setor também foi atingido por uma série de atentados suicidas.

“O lado turco deu uma garantia escrita de que eles vão cumprir as recomendações da Rússia sobre as medidas de segurança extra para os turistas russos em resorts turcos”, disse Ushakov em uma entrevista em Moscou na sexta-feira, acrescentando que a Turquia havia concedido a especialistas russos permissão para verificar as medidas relativas ao setor.

Na Síria, Kortunov disse que não havia espaço para os dois lados se aproximarem em relação as opções para uma transição política para acabar com a guerra civil de cinco anos, sob a forma de uma nova Constituição para o país.

“Em cooperação com a Rússia, gostaríamos de facilitar uma transição política na Síria o mais rápido possível”, disse o porta-voz de Erdogan, Ibrahim Kalin, em uma entrevista à agência de notícias TASS da Rússia. Mas ele repetiu a convicção de longa data da Turquia de que tal feito só seria possível com a saída de Assad.

Kalin descreveu as recentes tensões com a Rússia como uma “turbulência de curta duração” em uma amizade que remonta séculos. Os líderes no Ocidente podem estar esperando que o mesmo seja verdadeiro para as suas relações com Ancara.

“O pano de fundo político não sugere que haverá áreas de convergência entre a Turquia e a Rússia”, disse Uglen, o ex-diplomata. “O que não é realista, porém, é ver a Rússia como uma alternativa estratégica para a ancoragem ocidental da Turquia. A Turquia continua a ser um aliado do Ocidente.”

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