17 de abr de 2018

Fortalecer a Máquina do Governo Mundial: A Era da Política Espiritual Global

Fortalecer a Máquina do Governo Mundial:


A Era da Política Espiritual Global



Forcing Change, Volume 9, Edição 5.


Autor: Carl Teichrib.


É impressionante o que o tempo revela. Meses atrás, tive a oportunidade de examinar registros antigos sobre o governo mundial, do período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário da nossa era contemporânea, quando tantas pessoas rejeitam a ideia da "ordem mundial" como uma teoria da conspiração, os anos 1940s e início dos 1950s foram diferentes. A aceitação do governo mundial era mais visível, com grupos de igrejas se apressando para adicionar suas vozes de apoio.

Existem razões históricas por que o período pós-guerra esteve aberto à ideia. A primeira e mais importante de todas, foi a profunda destruição de vidas e propriedades causadas pelo conflito global. A Europa e a Ásia estavam em frangalhos, milhões tinham perecido e a ideia de outra guerra mundial estava fortemente na cabeça de muitos. Isto somente aumentou o interesse pelo assunto.

Mas, alguma coisa mais estava acontecendo. Os grupos religiosos e denominações emergiram como uma voz de liderança para a "ordem mundial". Essas chamadas para a paz mundial por meio da unidade política estavam ocorrendo durante os anos anteriores da Segunda Guerra Mundial, durante e depois.

Definindo o cenário em 1937, a Conferência Oxford Sobre Igrejas, Comunidades e Estados, propôs uma "nova ordem nos assuntos internacionais" por meio da ação voluntária das nações. [1]. No ano seguinte, a Conferência Missionária Mundial — uma precursora do Conselho Mundial de Igrejas — realizou um importante evento em Madras, Índia, conhecido como Conferência Tambaram. A assembleia reconheceu que "o Reino de Deus requer tanto conversão individual e transformação social" e que "indivíduos transformados sozinhos, sem a ação coletiva, não transformarão adequadamente a ordem social."

"Um sistema eficaz de organização internacional é necessário", dizia o relatório final, "para fornecer meios pacíficos e juridicamente legais para a transformação política e econômica". [2].

Então, em 1939, quando a guerra na Europa já tinha iniciado, o Comitê Provisório do Conselho Mundial de Igrejas lançou um memorando sobre a paz mundial. É interessante ver qual era o pensamento naquele tempo, nove anos antes de o Conselho Mundial de Igrejas ser oficialmente lançado.

"A soberania nacional", explicava o memorando, precisa encontrar seu contrabalanço e limitação na solidariedade internacional."

Apareceram os questionamentos. "Deve a Igreja colaborar com as forças seculares? Em caso afirmativo, pode a igreja somente se associar com forças seculares ao resistir aos poderes e condições que formam a desordem internacional? Ou, pode ela também se associar com as forças seculares na construção da ordem internacional?"

Questões adicionais sobre as estruturas políticas entraram em jogo. "Que forma deve a imposição da lei ter na vida internacional?... o quanto a criação de organismos federais em cada continente seria uma etapa útil na organização orgânica do mundo em órgãos regionais?" [3].

Durante a guerra, o Conselho Federal de Igrejas (FCC) e sua Comissão para Estudar as Bases de uma Paz Justa e Duradoura — presidida por John Foster Dulles, que mais tarde se tornou Secretário de Estado dos EUA — promoveu abertamente o governo mundial federado. Trabalhando com líderes eclesiásticos e teólogos, a Comissão do FCC explorou os problemas da paz mundial e defendeu a ordem internacional. O Conselho Federal de Igrejas dizia: "Reconhecemos que a solução final desses problemas... requer um governo mundial organizado para o qual certas funções da soberania nacional serão delegadas..." [4].

Perto do fim da guerra, o Conselho de Igrejas e várias denominações aumentaram o chamado para o internacionalismo.

O Conselho de Bispos Metodistas iniciou uma "Cruzada para uma Nova Ordem Mundial" e a Convenção Batista do Norte iniciou sua "Cruzada da Ordem Mundial". O próprio Conselho Federal de Igrejas lançou um "Dia da Ordem Mundial." [5]. Preparando-se para a criação das Nações Unidas, grupos de igrejas trabalharam ao lado de organizações do governo mundial, ao mesmo tempo que participavam de reuniões especiais no Departamento de Estado. Entre os órgãos religiosos estavam as Igrejas Congregacionais, a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana, o Conselho Nacional das Mulheres Católicas, a Aliança Batista Mundial e o Comitê Batista Sulista para a Paz Mundial. Esses grupos, e outros, trabalharam ao lado de entidades pró-governo mundial, como Americanos Unidos para a Organização Mundial, os Federalistas Mundiais e a Associação do Governo Mundial. [6].

Os interesses em organizar o "governo mundial" continuaram a crescer após 1945, com a criação da Organização das Nações Unidas, e surgiu a esperança que a recém-formada ONU em breve se tornasse verdadeiramente fortalecida. Por volta de 1947, a organização Federalistas do Mundo Unido (UWF) foi fundada — uma organização pública dedicada ao governo mundial. Ela rapidamente se tornou a voz principal para a ordem mundial e para o fortalecimento da ONU.

Grupos de igrejas, sindicatos, partidos políticos e associações comerciais rapidamente saltaram para dentro do vagão dos Federalistas do Mundo Unido.

Envolvimento dos Federalistas do Mundo Unido

Meu tempo explorando as caixas de registros e as cartas do movimento da ordem mundial, armazenadas em um sistema de bibliotecas no meio-oeste, enfocou os primeiros anos do UWF. Dado o acesso ao material, incluindo cartas de suporte, memorandos, resoluções e listas de nomes, fiquei admirado, mas não chocado, com o nível de envolvimento de grupos de todos tipos — incluindo igrejas. O governo mundial era um empreendimento emocionante para uma população ansiosa para se livrar dos horrores da guerra.

Aqui estão alguns exemplos:

  • Os batistas sulistas aprovaram uma resolução em 1946 — antes da criação do UWF — propondo uma ordem internacional organizada: "... recomendamos que os batistas sulistas endossem o princípio da federação mundial e trabalhem para revisar e aprimorar a organização das Nações Unidas para alcançar esse fim." [7].
  • Em 1948, o Comitê Democrático Nacional enviou um observador oficial à Assembleia-Geral do UWF. Vincent M. Gaughan, secretário-executivo dos Clubes dos Jovens Democratas da América, foi indicado como representante do partido para participar do encontro do governo mundial. [8].
  • Em 1949, a Federação Nacional dos Jovens Republicanos emitiu uma resolução propondo que o governo dos EUA "fortaleça as Nações Unidas e busque seu desenvolvimento em uma federação mundial." [9]. No mesmo ano, a Federação Nacional dos Jovens Republicanos participou oficialmente no encontro anual do UWF, em Cleveland, Ohio.
  • A Associação Católica para a Paz Internacional concordou em enviar um observador oficial para o encontro anual do UWF de 1949. [10]. Antes do fim da Segunda Guerra Mundial e por meio da criação das Nações Unidas, e depois, a Associação Católica para a Paz Mundial trabalhou lado a lado com as organizações Federalistas Mundiais na causa da ordem global.
  • O Partido Liberal de Nova York, formado em oposição ao Partido Trabalhista Americano, e que foi instrumento útil para ajudar Franklin D. Roosevelt no estado de Nova York, escreveu a Cord Meyer, presidente do UWF, em suporte ao "governo mundial federal". Veja a Fotografia A.
  • Durante a convenção anual da Juventude Metodista em Denver, no Colorado, em 1950, uma resolução foi passada que dizia assim: "A Conferência Nacional da Juventude Metodista apoia a cessão de soberania nacional suficiente para o estabelecimento de paz duradoura e o eventual desenvolvimento da cooperação internacional eficaz na forma de um governo mundial federal democrático." [11].
  • Em 26 de maio de 1950, a Convenção Batista do Norte aprovou uma resolução que dizia: "Resolvemos: O encaminhamento de uma petição ao nosso governo para que tome a liderança em solicitar à ONU a convocação de outra conferência dentro da estrutura da Carta das Nações Unidas, para revisar, emendar e fortalecer o mecanismo do governo mundial." [12].
  • Em sua convenção em abril de 1951, a central sindicalista Trabalhadores Unidos da Indústria Automobilística adotou uma resolução favorável ao governo mundial: "Precisamos iniciar agora para fortalecer e construir, por meio das Nações Unidas, mecanismos práticos e adequados para atender aos problemas da comunidade mundial, para que alcancemos, o mais rápido possível, no campo dos assuntos internacionais, um governo mundial..." [13].
  • Uma lista interna do UWF das "organizações nacionais no registro em favor do princípio da federação mundial (sem necessariamente endossar os Federalistas Mundiais Unidos)" foi compilado em 1951. Veja a Fotografia B.
  • Domingos da Ordem Mundial já tinham ocorrido antes, mas em 1952, o UWF promoveu um "Dia do Descanso do Governo Mundial" e um "Domingo do Governo Mundial". Em um memorando enviado para todas as filiais e capítulos do UWF, foi reconhecido que esse programa chamaria a atenção para "o suporte interfé para nosso objetivo". A campanha também pediria aos líderes religiosos para se juntarem em alcançar a "paz por meio de um governo mundial". Veja a Fotografia C e observe que no Ponto 3, foi sugerido que a publicidade para o Domingo do Governo Mundial não fosse atribuída ao UWF.
  • No sul da Califórnia, cerca de 500 líderes de igrejas receberam cartas da filial do Sul da Califórnia do UWF, pedindo que participassem no Domingo do Governo Mundial com sermões, convites para palestrantes e distribuindo literatura de suporte ao federalismo mundial. Uma lista de resoluções de igrejas em apoio ao governo mundial foi apresentada junto com a carta. Foi sugerido que os boletins dominicais da igrejas incluíssem essas afirmações denominacionais." [14].

Uma resolução interessante foi aprovada pela Legião Americana em 1951 — uma declaração que falava dos perigos do governo mundial, ao mesmo tempo que defendia uma ONU mais fortalecida, incluindo o estabelecimento dentro dela de uma "Força Policial Internacional eficaz":
"Acreditamos que a ONU possa ser uma autoridade mundial eficaz — e que uma ONU fortalecida seja a melhor proteção contra o desenvolvimento de um governo mundial totalitário..."

"... precisa ser claramente compreendido que nós, de forma alguma subscrevemos ou endossamos a participação dos EUA em qualquer forma de Federação Mundial ou Governo Mundial, ou em uma organização federativa intermediária, que em todo ou em parte, envolva o sacrifício da soberania dos EUA." [15].

Declínio e Perigos

Por volta de 1950, os Federalistas do Mundo Unido (UWF) podiam se orgulhar de terem mais de 40.000 membros e o suporte de muitas personalidades bem-conhecidas. Além disso, as resoluções dos Federalistas do Mundo Unido foram apresentadas diante do Congresso e do Senado dos EUA, juntamente com resoluções e referendos similares nos estados de Massachusetts, Connecticut, Oklahoma e Califórnia. Em seguida, após seu início vigoroso, o UWF observou sua base de suporte encolher rapidamente.

O declínio foi causado por uma tempestade quase perfeita das altamente carregadas preocupações internas e externas. No exterior, a Guerra da Coreia e o aparecimento da China Comunista fez muitos perderem a fé no poder prático da ONU. Isto teve um efeito negativo sobre os membros do UWF. A Guerra Fria também impactou a organização, pois tornou-se óbvio que um governo planetário eficaz nunca viria a frutificar em um mundo tão profundamente dividido.

Mais problemático para o UWF foi que, internamente, as percepções das conexões comunistas com o Federalismo Mundial estavam causando problemas. Na verdade, a preocupação com os possíveis elos do UWF com o comunismo compeliram Richard Nixon — que naquele tempo era um congressista — a examinar a questão para o Comitê Central Republicano no Senado, em 1949. Nixon reportou que "os Federalistas do Mundo Unido não eram citados como uma organização comunista de fachada". [16]. É interessante que Nixon tinha anteriormente copatrocinado duas leis "federalistas mundiais" em suporte à Lei Internacional e uma "Força Policial Mundial eficaz". [17].

É provavelmente verdade que o UWF não fosse uma "organização comunista de fachada". [18] Alguns membros, na verdade, acreditavam que o governo mundial poderia ser um modo de combater o Comunismo Internacional. Além disso, a organização declarava em seus estatutos que "sabidamente não admitiria ou permitiria como membros pessoas que fosse comunistas ou fascistas, ou que procurassem derrubar o governo." [19]. Anticomunistas ferrenhos eram parte da liderança do UWF. Entretanto, a organização tinha laços com algumas entidades e personalidades progressistas que eram vistas como simpatizantes dos comunistas. [20]. Uma sombra pairava sobre o grupo.

Os Federalistas do Mundo Unido estavam certamente interessados em um governo mundial; disso não há dúvidas, mas eles não endossavam o sistema comunista como modelo a seguir. Eles advogavam a federação — a união dos Estados que compartilham uma constituição comum e mantêm a soberania sobre as questões internacionais, porém que operam dentro dos limites de um governo central democrático limitado. Esta era uma abordagem americana.

Mas, o federalismo democrático não garante a ausência da tirania. O federalismo pode ser estabelecido com intenções benéficas em mente, mas o despotismo potencial do excesso de burocracia ainda paira no horizonte, particularmente quando grupos de interesses especiais fazem exigências que, por sua vez, levam as agências políticas a expandirem tremendamente os controles regulatórios. Tampouco o federalismo garante a ausência da centralização imponente, o socialismo ou até a ditadura. Tudo pode ser encontrado na história da democracia, do federalismo e do constitucionalismo. Como um historiador salienta, aqueles que advogam os sonhos utópicos "negligenciam completamente o pecado original, com seus efeitos sobre as qualidades morais e intelectuais do homem." [21].

Afirmar que o governo mundial é "seguro" por que seria estabelecido em linhas federadas, republicanas e democrática é tolice. O federalismo mundial pode professar garantir a liberdade, mas como na famosa frase de Lord Acton, "O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente." [22].

Lições Aprendidas

O que chamou minha atenção quando examinei as caixas de materiais da ordem mundial, foi como as organizações eclesiásticas saltaram para dentro do vagão — mesmo que tivessem membros leigos que certamente se opunham ao governo mundial. Muitos líderes na comunidade cristã, naquele tempo, foram rápidos em seguir um mapa do tesouro político, que mostrava a promessa da paz e da ordem mundiais. Os cristãos iriam ajudar a criar "o céu na Terra".

Não muita coisa mudou.

Em 2010, fui um observador no Encontro de Cúpula do G8 das Religiões do Mundo, liderado por membros de alto escalão do Movimento Federalista Mundial — a continuação histórica dos Federalistas do Mundo Unido. Aqui, nesse Encontro de Cúpula, denominações e organizações representando uma grande porção da comunidade cristã — junto com hindus, muçulmanos, baha'ís e líderes espirituais de culturas autóctones — conversaram abertamente sobre a necessidade de dar maiores poderes à ONU, impor um sistema de tributação mundial, adotar uma teologia verde global e impor restrições sobre o capitalismo. Tudo isto seria feito sob o estandarte da "governança global" e da "justiça social". [23].

Mas, há mais coisas acontecendo além de apenas a liderança flertar com "respostas terreais". Temos agora uma porção significativa da nossa população cristã, graças, em parte, ao papel transformador da educação pública, que se identifica como cidadãos do mundo, de um modo político-espiritual. Divorciados em grande parte das consequências históricas das ideias utópicas, um reaparecimento das ideias progressistas e esquerdistas se estabeleceu tanto no pensamento secular quanto no cristão. Com isto vem o brado de ação — a revolução social e a governança global caminham de mãos dadas.

Isto foi visível no livro de Brian McLaren, intitulado Everything Must Change: Jesus, Global Crisis, and a Revolution of Hope (Tudo Precisa Mudar: Jesus, a Crise Global e uma Revolução da Esperança). McLaren, a figura mais conhecida no Movimento da Igreja Emergente, apresenta o internacionalismo para seus leitores. Após condenar o Cristianismo tradicional por ser individualista demais e fora de sintonia, especialmente à luz da "mudança climática" e da pobreza existente no mundo, McLaren faz duas sugestões: "a supervisão pública das democracias" e "uma comunidade global de comunidades". Nenhuma das duas ideias é dele mesmo, e ele dá os créditos onde eles são devidos — a David Korten, um membro do globalista Clube de Roma, e a Jim Garrison. Ambos creem fielmente na ordem mundial.

Na verdade, Garrison, fundador da Fundação Gorbachev e presidente da Universidade da Sabedoria — uma escola de filosofia esotérica — foi e continua a ser um apoiador do governo mundial. Falando ao jornal San Francisco Weekly, em 1995, ele disse: "Nos próximos 20-30 anos teremos um governo mundial. É inevitável." [24].

McLaren compartilha as ideias de Garrison de governança global: dar maiores poderes às Nações Unidas, reforma radical na Organização Mundial do Comércio (OMC) e a criação de órgãos como a Organização do Meio Ambiente Global. Essas novas instituições com maiores poderes, junto com o movimento da sociedade civil, que pode ajudar a moldar a opinião pública, tornam-se uma "estrutura que nos permite antever uma comunidade global interdependente e mutuamente compromissada de comunidades." [25]. Essencialmente, isto é um novo giro em torno de uma ideia antiga.

Observe os líderes religiosos e suas organizações continuarem a propor uma ordem global, o internacionalismo progressista e a unidade global. Essas propostas de interdependência avançarão à medida que as guerras e os rumores de guerras aumentarem, bem como outras crises — reais ou percebidas — se desdobrarem diante de nosso olhos. O pensamento cultural "progressista" irá, da mesma forma, acresentar maior ímpeto à causa, energizando a demanda pela unidade global.

Similar aos dias agitados dos Federalistas do Mundo Unido, também podemos esperar uma maior integração da "ordem mundial" e da "religião mundial". Como um crítico do movimento mundial o descreveu, isto é o aparecimento de uma "nova era ideológica da política espiritual global". [26].

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