17 de ago de 2016

Rússia-Irã: Uma aliança de interesses - terrorismo e expansionismo

Putin e Rouhani


Euronews, 17 de agosto de 2016.



Desde setembro do ano passado, quando a Rússia entrou na guerra ao lado de Damasco, que os aviões russos bombardeiam a Síria. Mas agora estes descolam do Irão. Um facto inédito para a Rússia, mas também para o Irão, que desde 1979 não tinha autorizado o uso das suas bases por um outro país.

É sem dúvida uma vantagem tática e logística para a Rússia, que ganha tempo de voo e pode transportar mais munições. Mas acima de tudo, há um interesse político para os dois países.



Nas últimas semanas, as duas potências multiplicaram os encontros e as declarações. Os aliados históricos de Damasco e de Bachar al-Assad procuram criar uma frente unida e posicionar-se como elementos chave para a resolução do conflito.

O apoio ao regime sírio é inequívoco, como declarou Alaeddin Boroujerdi, chefe da Comissão parlamentar iraniana de Segurança Nacional e Política Externa: “Porque o povo sírio está na primeira linha da resistência, nós estamos ao lado da Síria. Viemos anunciar o nosso apoio à Síria”.


Ao colocar-se ao lado da Rússia, o Irão sai da sombra e assume um lugar na cena internacional.

Já a Rússia recupera a influência no Médio Oriente, através de uma peça central do xadrez geopolítico regional.

Moscovo tem interesse em bloquear a progressão do islão radical sunita e o Irão, xiita, não será, a priori, uma ameaça à sua influência nas ex-repúblicas do Cáucaso, muçulmanas sunitas.


Além disso, Moscovo têm interesse em criar um eixo forte com as duas potências regionais, o Irão e a Turquia, para limitar a influência norte-americana.

Andrew Tabler, do Washington Institute for Near East Policy, explica: “É a primeira vez que a Rússia usa uma base do Irão. Marca uma escalada na guerra na Síria, não em termos militares, mas na aliança russo-iraniana em lugares como a Síria. Podemos ver claramente que os russos estão a jogar as cartas políticas em locais como a Síria, enquanto os Estados Unidos, estão, no melhor dos casos, a jogar à defesa”.

Por isso, o diferendo entre Moscovo e Anacara não podia prolongar-se. A reconciliação está em curso e o aperto de mão entre Putin e Erdogan foi saudado pelo Irão. Teerão tem interesse em ver cimentado o eixo tripartido, apesar das divergências históricas com Ancara.

Emerge assim uma aliança inédita contra a influência ocidental, segundo Huseyin Bagci, professor no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Técnica do Médio Oriente: “Há uma desconfiança, diria, dos turcos em relação aos americanos, à NATO e aos europeus e, ao mesmo tempo, mostram ter mais confiança em Putin. É algo de novo nas nossas relações”.

Com a crescente influência russa fala-se de uma possível cooperação entre Rússia e Estados Unidos em Alepo.

O ministro russo da Defesa diz que o acordo está próximo. Washington não confirma, mas reconhece contactos regulares com os russos para tentar consolidar o cessar-fogo e o acesso da ajuda humanitária.




O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia rejeitou as alegações de violação das sanções da ONU contra o Irão.

Em causa está a atividade de aviões da força aérea russa na base iraniana de Hamadã que o representante do Departamento de Estado norte-americano Mark Toner denuncia como sendo um desrespeito pela resolução 22311 do Conselho de Segurança da ONU, que proíbe venda e fornecimento de aviões militares ao Irão.




Moscovo contesta: “Não há razões para suspeitar que a Rússia está a violar resolução 2231. De acordo com esta resolução, é necessário coordenar o fornecimento, a venda e transferência para o Irão de certos tipos de armas, incluindo aeronaves militares. No caso que está sendo discutido não ocorreram nem fornecimento nem transferência ou venda de aviões militares para o Irão.”

Em Teerão o assunto foi levado ao Parlamento cujo presidente tentou sossegar a opinião pública nacional, salientando que a Rússia não tem uma base militar permanente na República Islâmica mas Teerão permite que aviões de guerra russos possam descolar do seu território para bombardear alvos na Síria.

Trata-se de um iniciativa sem precedentes, numa altura em que as duas potências aprofundam a cooperação na guerra civil síria onde estão fortemente investidas.

A Constituição iraniana, ratificada após a Revolução Islâmica de 1979, proíbe forças armadas estrangeiras de ter bases no interior do país.


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